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quarta-feira, 2 de março de 2011

Estilo De Vida, A Medicina Sem Remédio

Estilo De Vida, A Medicina Sem Remédio

Conceitualmente estilo quer dizer costume, hábito, forma de proceder. São comuns as observações como estilo extravagante, clássico, arrojado, para explicar atitudes desvinculadas de padrões, ou ainda obedientes às regras de cada situação, bem como obsessão em alcançar determinados resultados. E o estilo de vida o que quer dizer? Primeiro é necessário buscarmos a finalidade da vida, o seu sentido e depois os procedimentos e atitudes que permitirão alcançar verdadeiramente a essência da existência. Estilo de vida, em nossos dias, diz respeito basicamente a atividade física e essa ênfase fundamenta - se nos interesses comerciais da indústria de material esportivo. No entanto, o estilo de vida é mais amplo e abrangente. Para perfeita harmonia de vida, necessário se faz priorizar o intelecto, a qualificação e satisfação profissional, o equilíbrio emocional, o desenvolvimento espiritual e o envolvimento social. Nada disso será possível sem a saúde do físico.

A saúde física do povo brasileiro está ameaçada. Encontramos 60% de sedentários, 42% com colesterol alto, 36% de tabagistas, 32% de obesos, 20% de hipertensos, 18% de alcoólatras e 12% de diabéticos. Essas condições mórbidas predispõem às doenças cardiovasculares que no Brasil respondem por 34% dos óbitos. Mato Grosso do Sul que é um estado bucólico, com grande extensão territorial e baixa densidade demográfica , exibe índices assustadores com 30% das mortes causadas por doenças do aparelho circulatório e 18% de causas externas. Quase 50% das mortes no meu Estado são causadas pela violência interna e externa. É sobremodo preocupante quando vemos que há pouco mais de 100 anos, Willam Osler, grande clínico canadense do final do século XIX, apenas citou no seu livro ( The Principles and Practice of Medicine ) em 1891, que a angina e hipertensão arterial eram entidades raras na época e hoje ajudam a ceifar precocemente, vidas relativamente jovens. Na década de 30, no estado de São Paulo, as doenças cardiovasculares respondiam por 10% dos óbitos e as doenças infecciosas por 40%. Houve o que chamamos inversão epidemiológica e as doenças infecciosas são responsáveis por apenas 4 a 5 % das mortes nos dias de hoje.

Quando indagamos, o que tem acontecido com a nossa sociedade, não fica difícil explicar a mudança do perfil da mortalidade. Não há dúvida de que a conquista tecnológica e a disseminação do saneamento básico foram os determinantes da redução da prevalência das doenças infecto- parasitárias, embora o descuido e descaso de muitos políticos tenham feito recrudescer parte delas já erradicadas. O difícil é explicar tecnicamente porque as doenças cardiovasculares aumentaram no século das grandes conquistas científicas e tecnológicas. É indiscutível que esses avanços não melhoraram o homem e o seu meio social, pelo contrário, tornaram- no mais ansioso, egoísta e sobre- tudo vaidoso. O capitalismo, facilitador de grandes realizações, nos ensinou que só valemos o quanto temos. Essa consciência determinou e determina mudanças profundas de comportamento com grandes agressões à homeostase orgânica. É necessário trabalhar cada vez mais com limitações e insegurança cada vez maiores. Muitos dormem pouco, comem demais e nada se exercitam. A estrutura orgânica não tolera as pressões a ela imposta. Sempre que nos deparamos com situações desagradáveis, e são comuns no nosso meio, soa o alarme interno com liberação da adrenalina e nor-adrenalina que visam preparar o organismo para a luta ou fuga. O homem primitivo experimentava poucas vezes essa situação, o moderno não se livra dela. A adrenalina aumenta o açúcar no sangue, colesterol, triglicérides e ácidos graxos que dificultam a ação da insulina predispondo ao diabetes. Há ainda aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca aumentando a velocidade do sangue e facilitando o desencadear de entupimentos arteriais com infartos.

A obesidade é outro flagelo social. Ninguém é gordo porque quer. É conseqüência de frustrações e angústias. Comer tem expressão afetiva e tenta - se recobrar o equilíbrio psico - social com a auto premiação oral. Só que ao se ingerir alimentos, principalmente os carboidratos, mais uma vez é desencadeado o mecanismo adrenérgico e seus males com desvantagem em relação ao estress puro e simples. O obeso desenvolve barriga e essa gordura funciona como alimentador de processo inflamatório arterial, predispondo a obstrução e conseqüente aterosclerose nos mais variados sítios corporais. Ao se ganhar peso, mais inativo e estressado se torna porque até as pequenas tarefas passam a ser executadas com grande esforço e liberação de adrenalina, refazendo o ciclo vicioso que leva às alterações metabólicas e obstrução arterial. São esses os processos que determinam o aumento das mortes de origem cardiovascular.

O que fazer diante desse cenário tétrico e lúgubre ? Nada do que está sendo proposto resolverá a questão. A tecnologia já se mostrou incompetente até mesmo no reparo das lesões coronarianas, caracterizando - se como tecnologia de meio termo. A indústria farmacêutica só entra em ação quando o indivíduo já está doente e aí a perspectiva de cura inexiste. Controla - se a progressão com medicamentos de uso ininterrupto. Sobra a mudança comportamental. Muitas opções se nos apresentam. A que mais fascina é a religião mas, infelizmente ela tem fugido dos fundamentos teológicos para a mudança interior do homem. Ultimamente a Igreja está sendo colocada a serviço do capitalismo. A religião se transformou num meio de vida deixando de lado o modo de vida. Acredito que a única condição capaz de mudança é a instrução do cidadão e seu esclarecimento de como proceder para preservar o seu maior patrimônio, a saúde.

Instruído e convencido, o homem será o arauto da mudança do estilo atual de vida para o harmônico estilo de vida que permitirá viver 120 anos sem o uso de remédios mas, priorizando a atividade física e os verdadeiros valores essenciais da vida.
Crédito:
Dr. Luiz Alberto Ovando - cardiologista/MS

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